DOSES DE ADRENALINA

Posted: terça-feira, 1 de outubro de 2013 by ajeugenio in Marcadores: , , , ,
0

Precisava esquecer-me da Lia, uma ex-date de um tempo atrás, de qualquer maneira. Logo eu, que sempre fui blasé e não me importava com muito mais do que uma noite com uma mulher - vá lá, um ou outro remember, se a vibe fosse foda -, fui ficar atraído por ela. Dia da caça, outro do caçador, dizem. Pior foi vê-la na noite anterior com outro cara. Aquilo doeu e, pior, não foi por orgulho. Sabe-se lá o que fui ver nela. Se tem algo na vida que me deixa puto, isso é sentir-me vulnerável. Não sou machista e apoio totalmente o feminismo - não o extremismo, quero deixar claro -, mas faço de tudo para não me envolver com ninguém, simples assim.

Estava vagando sem rumo, procurando por um bar e, com um pouco de sorte, uma boa companhia para passar a noite. Precisava esquecê-la de qualquer maneira. Estava nessa vibe quando encontrei o Beto, brotherzaço meu de longa data. Ele estava sem rumo também. Só não na mesma vibe que a minha porque ele é o típico malandro: o cara manja como poucos a arte de não sentir nada por ninguém - se muito, pela mãe. "Cara, tô na merda e não sei por que caralhos não consigo tirar aquela mina da cabeça", confidenciei, com ar derrotado. "Merda acontece, irmão. Bora beber e já era", ele respondeu de bate-pronto. Era só desabafar um pouco entre umas e outras, cada um encontrar uma mina para passar a noite e já era. Se nada virasse, o Casarão (ou "Boate Azul", como batizamos a digna - ops - casa) seria o destino do fim da noite. Aquilo era o recurso desesperado, mas melhor aquilo do que terminar na mão.

Assim a noite ia, entre uma garrafa de cerveja e outra, intermediados por altas risadas, canalhices em doses cavalares e olhadas ao melhor estilo Pereio para as mulheres no bar. E os alvos já estavam devidamente escolhidos, mas aquela velha historia de que o peixe periga morrer pela boca - ou melhor, pelo olho e por pensar com a outra cabeça -, ela sempre vem à tona. Ao chegar no balcão, vejo a perfeição - ou convite à roubada, se preferir - em pessoa: sorriso de quem pede para gozar na cara, olhar de quem quer te dar, corpo escultural, peitos proporcionais, com o copo vazio e ainda estava sozinha. O que qualquer homem à deriva faz? Enche o copo, simples assim. Talvez Pedro tenha gritado bem ao fundo que era uma cilada, mas Bino - ops: eu - estava pouco se fodendo àquela merda toda. Eu era todo ouvidos, olhos e pau para ela, nada mais. Comecei a puxar papo, conversar e já estava aproveitadndo o barulho ambiente como pretexto para mandar aquele papinho mole e canalha ao pé do ouvido. Mas se tem algo que acontece na minha vida, isso é merda. Ela estava sozinha era o caralho: o namorado dela havia ido ao banheiro e voltou bem quando o papo estava para lá de desenvolvido - "por que caralhos ela não me cortou na hora se ela estava acompanhada, porra?", pensei. Para foder com a merda toda, o cara parecia ser segurança de baile funk na minha quebrada. Estava fodido e não parecia nada para servir com o álibi.

Qual saída que qualquer cara metido a malandro toma? Socializa com o "sócio". Encher o copo e começar a conversar com o cara, além de inventar uma desculpa qualquer - "Ela estava sozinha e estava fazendo companhia, sabe como é" - era a saída de emergência. Mas a resposta do cara foi, no mínimo, para fazer qualquer um sair correndo: "Sou campeão paulista de caratê, cara", ele mandou na lata. Por fora, o meu lado cara de pau e a minha aparente indiferença etílica pareciam transmitir sensação de controle, mas por dentro, fera, estava todo cagado de medo [metaforicamente falando, é claro]. Nesse meio tempo, o Beto, estranhando a demora para pegar uma simples garrafa de cerveja, colou no balcão para ver o que estava acontecendo e, claro, assustou-se com o que viu. "Entendi todo o lance e o que se passou na sua cabeça, mas estamos fodidos". É, pelo jeito, estávamos, sim.

Segundo ato: o "sócio", após mostrar fotos de lutas, ligou o foda-se para a breja e partiu para aquela bebida alemã cujo nome é impronunciável após a segunda dose. "Era a bebida preferida do Hitler", emendou. E não é que o puto colocou aquela delícia em forma de mulher para contar toda a porra da história da Jaggerm...foda-se a merda do nome?! Mesmo no modo "mayday! mayday! mayday!", só conseguia ver os lábios, os seios e todo o resto em slow motion - juízo para quê, não? Para completar, o "sócio" mandou a seguinte, após a aula sobre o lado alcoólico da II Guerra Mundial: ele a conheceu dançando no queijo do Love Story. "Ela é carente e por isso sorriu quando disse que aquele lugar, naquela noite, só valia a pena por causa dela", pensei, tentando ligar os pontos. E ele devia ser da turma dos Balotellis, daqueles que apostam a namorada no pôquer, por falar aquilo. Mas qualquer tipo de raciocínio foi embora com o último gole de cerveja quando ele chamou todo mundo para fora. "Vai dar merda essa porra aí", foi o que pensei na hora. Creio que o Beto pensou o mesmo.

O clima continuava amistoso, mas a tensão estava tão presente no ar quanto as minhas pernas tremendo - de medo - sob as calças. Correr não estava nos meus planos e, enquanto pensava em uma alternativa, as garrafas no chão começavam a ficar mais atraentes. Já estava começando a considerar a reatar com a religião e prometer passar um ano sem frequentar o Casarão, beber, ir ao templo de bicicleta, sei lá. E parece que as minhas pseudopreces foram atendidas: em questão de minutos, o cara, já falando mole e com jeito de quem ia brigar com o primeiro que visse, decidiu descer o vale com a mina. Aliviado, ainda tive tempo de dar a última conferida.

Segundos depois, eu e Beto nos entreolhamos aliviados e, do nada, emendei: "Irmão, acho que alguém lá em cima vai pra caralho com a nossa cara". "Pra caralho, irmão", ele completou. Corpos devidamente fechados e copos igualmente cheios, voltamos ao plano A. Pelo menos, ali, não haveria nenhum risco de espancamento e a briga foi bem mais agradável no fim das contas. E quanto à Lia, ela já havia virado passado.

FREE AS A BIRD IN A CAGE

Posted: segunda-feira, 30 de setembro de 2013 by ajeugenio in
0


7:00 e o despertador tocava alucinadamente no refrão de "Everybody Hurts", do REM. Aquele "Hold on" cantado visceralmente por Michael Stipe era tudo o que não dizia respeito à sua vida. Aliás, se o significado da letra inteira fosse levado ao pé da letra, talvez fariam algum sentido. Sentido, palavra que havia sumido de sua vida desde que fora abandonado pela esposa. Ela não aguentava mais o comportamento potencialmente autodestrutivo e o seu estilo de ser alternado entre o workaholic e o junkie. Deixar uma carta de despedida e partir sem deixar vestígio? Tudo bem, vá lá. Citar "You Can't Always Get What You Want" foi mancada, mas ele gostava de Rolling Stones e ainda entendeu. Mas aquele "Cuide bem de você", porra, teve o mesmo efeito do "pode pular pela janela agora". Se ele não via lá muito sentido em sua vida, agora, ele estava na contramão em busca de um caminhão-cegonha.

Sair da cama era foda. Barbear-se? Ele estava parecendo o Marcelo Camelo - e olha que ele não tinha mais saco para o Los Hermanos. Sua nova concepção de arrumar-se era calçar o All Star sujo e prestes a estar furado, e vestir o jeans quase rasgado de tão gasto e aquela camiseta puída do The Stooges, que já era praticamente a sua segunda pele. Café da manhã? Duas bolachas cream cracker, aquele suco industrializado vencido há dois dias e já estava ótimo. Claro, fumar três cigarros antes de sair de casa era o seu ritual particular. [ao contrário do que possa parecer, ele tinha sobrepeso, apesar da péssima alimentação] O gato comia muito melhor do que ele. No fim, o apartamento era a tradução de sua vida e de quem ele se tornara: uma desordem sem fim.

Nem o emprego em uma agência de publicidade, que o fazia sentir prazer em trabalhar, o motivava mais. Briefings viraram meras formalidades e a criação, que o fazia pirar [no bom sentido], estava um porre de vinho Sinuelo. Nem com os colegas de trabalho, com quem sempre se deu bem, ele queria papo. Ele olhava nos olhos deles e não se via lá, como se ele não existisse. Tudo o que ele queria era isolar-se do mundo e esconder sob a primeira mesa que visse. Quem sabe, recorrer à reclusão ao melhor estilo João Gilberto e Dalton Trevisan era a saída mais fácil.

Ele só queria sair sem rumo para esquecer-se de si. Talvez ele queria encontrar alguém que o fizesse sentir-se outra pessoa, quem sabe alguém bom, mas aquele e os outros dias eram tão-somente dias solitários. Tudo o que lhe restava era beber até esquecer-se de sua identidade ou ficar com outra pessoa, mesmo que fosse pagando, para esquecer da merda de sua vida. E la nave va, mas sem nenhum De Falco para gritar "Vada a bordo, cazzo!" para Schettino. Era inevitável que o navio batesse em alguma rocha ou iceberg. No fundo, era exatamente isso o que ele queria.

ANTIEU

Posted: sábado, 28 de setembro de 2013 by ajeugenio in Marcadores: ,
0


Sou contra a homofobia e Feliciano não me representa, mas acabo usando a expressão "viado" [com "i", mesmo] sem perceber.
Sou a favor da liberdade de expressão e da pluralidade cultural, mas não tenho saco para shows de sertanejo universitário e mando calar a boca se eu discordar.
Acho do caralho que todos leiam até bula de Biotônico Fontoura e manuais de instruções da iogurteira TopTherm [favor ler com a voz da Aracy], mas faço piadas com cinquenta tons de qualquer coisa e não tenho o menor saco para livros de autoajuda.
Não tenho paciência para bêbados, mas já dei alguns vexames e protagonizei cenas lamentáveis nas situações menos indicadas e com pessoas de quem gosto pacas. Ainda me pergunto por que não criaram algo como o Engov para ressaca moral.
Sou radicalmente contra a violência em estádios, mas sempre grito "Chupa!" na janela e tiro um puta sarro de adversários até eles perderem a esportiva.
Sempre reclamo do trânsito, mas nem fodendo dou carona para o meu vizinho. Quem mandou o puto gostar de jazz, sendo que sou chegado em pagode?
Sou daqueles que acham que não se bate em mulher nem com uma flor, mas já tive discussões com a minha namorada bem piores do que as de Sid e Nancy.
Sou um cara calmo, mas volta e meia faço comentários xenófobos e reaças em portais de notícias. Tudo em CAIXA ALTA, é claro.
Nem fodendo falo sobre sexo com os meus filhos, mas sempre vou à loucura quando alguma atriz paga peito na novela e faço questão de mostrar a cena ao meu filho para ele aprender a ser macho.
Quero viver num mundo mais justo, mas quem pertence às classes sociais menos privilegiadas que se foda.
Quero ver todos os políticos corruptos mofando na cadeia, mas sempre tento dar aquela enganada no leão, meto o louco quando pego troco a mais na padaria e faço mesmo aquele gato maroto na TV por assinatura.
Homem pode chorar por dor, amor ou pelo o que vier, mas fazê-lo em público é viadagem. [com "i", algum problema?]
Achei demais ver o povo tomando Brasília tal qual os franceses fizeram com a Bastilha, mas ainda me mando pra Paris na primeira oportunidade.
Sou humilde, mas sou o fodão, só escrevi verdades e não tolero críticas.
A única coisa que sei é que, parafraseando Bortolotto, da minha parte não espero nem um milagre.


Ponto de virada (parte II)

Posted: segunda-feira, 5 de agosto de 2013 by ajeugenio in
0


Para Roberto, aquela que tinha tudo para ser mais uma noite melancólica teve um ponto de virada digno de filmes de Tarantino. Em questão de pouco mais de uma hora, os pints de Guinness solitários foram substituídos por um bate-papo despretensioso e para lá de agradável com Diana.

O foda era, mesmo a tendo conhecido naquela noite, ele sentia-se à vontade com ela como há tempos não se sentia com a própria esposa. Roberto nunca a havia traído, mas a relação estava tão inviável que, para ele, ficar com outra mulher naquela noite não seria traição. Isso era tão emblemático que até mesmo a vida sexual, a única coisa que deu certo entre eles por anos, era um sacrifício. Isso quando eles transavam, é claro.

Logo, ele estava pouco se fodendo para o que restava de sua família e, na mesma proporção, era todo ouvidos - e todo o resto - para Diana. A sensação de que eles tinham muito em comum não era por acaso: ela também era dava aulas para turma de comunicação. Mas, ao contrário de Roberto, Diana era professora de multimeios em uma universidade pública. "Eles são chatos demais, mas ao menos dá para tentar conversar com eles", desabafava.

- Então, por que você continua a dar aulas para eles, já que são "chatos demais"? - perguntou Roberto, com o ar provocador que lhe fez colecionar alguns - ou melhor: vários - desafetos ao longo da vida.
- Nunca parei para pensar. E você, mesmo achando os seus alunos um bando de burgueses intratáveis, por que continua? - retrucou Diana, na mesma moeda.
- Nunca parei para pensar também. Talvez para ter sobre o que reclamar e uma justificativa para beber - respondeu Roberto, transitando entre o sarcástico e o blasé.

Entre provocações, tiradas sarcásticas e um pouco de ar blasé, Diana e Roberto iam ficando cada vez mais próximos e envolvidos. Claro, a química entre eles estava fluindo, se bem que para ele qualquer diálogo seria melhor do que as discussões com a (ex?) esposa. Daí, o inevitável aconteceu: eles começaram a se beijar ali mesmo, enquanto o clima ia ficando mais e mais intenso, cada vez mais próximo ao clímax.

Dali, o destino óbvio foi um motel - por sinal, aonde Roberto havia levado sua esposa (em quem ele já pensava como ex) quando eles estavam começando a namorar e aonde eles foram quando a relação ia muito bem, obrigado. Eles tiveram de se segurar para não transar no carro, o que já foi difícil, mas as mãos (nada) bobas já não podiam ser controladas no corredor. Ele teve de manter o mínimo de calma para não comê-la ali mesmo, mas faltou pouco para não resistir e deixar o seu lado visceral entrar em cena antes mesmo de girar a chave da fechadura. Bastou fechar a porta para aproveitar todos os espaços e posições que eram possíveis. Aquela havia sido sua transa mais selvagem em anos. Foi como se ele redescobrisse o cara sedutor e dominador que ele fora um dia.

Horas depois, quando já tomavam banho - juntos - para irem embora, Roberto fez a revelação (ou melhor: cometeu a gafe) da noite: "Há tempos não tinha uma noite tão incrível ao ponto de não dar a mínima para a cara de revolta da minha espos... Digo, ex-esposa", disse, como se estivesse afirmando a si próprio que ele já estava separado. Diana, que até então estava em êxtase e mais do que interessada em revê-lo, não conseguiu conter a decepção e a raiva e começou a xingá-lo por todos os insultos possíveis e imagináveis. "Não quero ouvir suas desculpas esfarrapadas! SAIA DA MINHA FRENTE!", gritava, conforme sua voz (não, não eram os gemidos) ecoava pelos corredores.

Roberto ainda tentou argumentar e falar à altura, mas pouco adiantaram as tentativas. Mesmo abatido pelo desfecho da noite - "Pior que gostei pra caralho dela", pensava enquanto abotoava a camisa e ia ao carro -, ele estava determinado a tomar uma atitude. Naquele mesmo dia, ele ligaria ao advogado, um velho conhecido, e daria entrada na papelada do divórcio.

Ponto de virada (parte I)

Posted: domingo, 4 de agosto de 2013 by ajeugenio in
0


Mais uma noite como qualquer outra. Mais uma vez aliviado por sair do ambiente burguês e hostil que era a universidade onde Roberto dava aulas de teoria da comunicação. Ele não aguentava mais aquele bando de jovens presunçosos e arrogantes. "Eles até podem ser filhos de empresários e pessoas influentes, mas nem fodendo eles serão bons profissionais", sempre confidenciava aos amigos. Mas eles eram os menores dos problemas: a convivência com o reitor da instituição estava inviável - um nunca suportou o outro, mas a última discussão foi a pá de cal na relação até então apenas pouco amigável - e sua vida pessoal estava de mal a pior. O casamento estava por um fio - ele não suportava mais a (ainda?) esposa, por quem um dia foi louco, por causa do desgaste natural que acontece com o passar do tempo. De quebra, até mesmo a relação com o filho estava desgastada, mas isso era natural se fosse levar em conta que lidar com adolescentes é difícil - "pra caralho", sempre completava mentalmente.

Aquela noite, em particular, estava mais melancólica do que todas as anteriores juntas. Voltar para casa estava fora de cogitação. Ir à happy hour com os outros professores do curso de jornalismo idem. Vá lá, ele se dava bem com eles, mas aquela noite seria para beber, reorganizar as ideias e, quem sabe, encontrar uma saída para a merda emocional na qual ele estava. Nem beber com os amigos estava em seus planos. O bar do qual ele era cliente de longa data foi o destino natural.

Entre um pint e outro de Guinness, além dos cigarros tragados, ele tentava entender o que aconteceu com o jovem idealista e sonhador que ele fora um dia. Claro, ele também tentava relembrar sua vida, momento a momento, para entender o que deu errado: por que ele deixou de amar a pessoa por quem ele ficou a fim desde o dia em que a viu pela primeira vez, o que deu na sua cabeça para largar o emprego dos sonhos após um bate-boca com o chefe de jornalismo da emissora na qual ele havia penado para entrar, e por que ele não conseguia reconhecer a si próprio no espelho. As respostas a todas essas perguntas pareciam inexistir, mas a angústia e os pints consumidos estavam aumentando. Ele já estava esperando a hora de Joãozinho, garçom conhecido de longa data, dizer: "Doutor [sic], pega leve! Chama o táxi e busca o carro amanhã. Guardo ele [sic] se o senhor quiser". Sim, isso aconteceu por outras vezes. Nada como uma ou outra regalia às quais só os clientes antigos têm direito. E Roberto ria ao pensar nisso.

Enquanto estava perdido nos próprios pensamentos, ele nem reparou que uma mulher havia se sentado ao na cadeira ao lado e assim foi por algum tempo, até que ele ouviu: "Não sei por que está rindo sozinho, mas deve ser algo engraçado". Ele ficou sem palavras e não conseguia responder nada de imediato. O sorriso, que destacava seus belos dentes, assim como o olhar penetrante, o deixaram hipnotizado. "Nada, nada. Só uma besteira na qual pensei, nada mais", disse Roberto, meio sem jeito. "Não me lembro de ter te visto aqui antes. Qual o seu nome?", perguntou ao mostrar-se à vontade como há tempos não se sentia. "Diana, muito prazer. E o seu?".

Há tempos ele não se sentia tão aberto ao acaso como naquela noite, sabe-se lá o motivo - nem ele sabia. Tudo o que Roberto pensava era deixar a noite rolar. E ele já sabia como esquecer de todos os problemas, pelo menos por algumas horas.

Unnamed feeling

Posted: quinta-feira, 1 de agosto de 2013 by ajeugenio in
0


Ele era um cara difícil para lidar. Seu comportamento aparentava dar sinais de calma, mas era apenas irritação controlada. Pouco importava a situação: ele parecia sempre controlar os próprios atos, pensamentos, reações e palavras. Era como se ele tentasse deixar o lado médico falar mais alto o tempo todo e enjaular o lado monstro. Era como se ele tivesse medo do dark side ofuscar a luz, por assim dizer. Ou como se ele tentasse se ver refletido nos olhos dos outros e não visse ninguém ali.

No trabalho? Ele respirava fundo a cada vez que o chefe jogava vários relatórios em sua mesa, como se analisá-los fosse a única coisa que ele fazia na porra da sua vida. "Quero tudo finalizado até as 19h, Carlos!", bradava o chefe, típico tiozinho de 50 anos meio careca, barrigudo e com ares de tecnocrata (eles ainda existem?). Ele tinha vontade de voar no pescoço dele, dar uns bons socos no nariz dele e sair dali à Michael Douglas em "Um Dia de Fúria". Mas o medo de imaginar o que todos pensariam sobre ele o fazia engolir aquilo a seco, como se fosse uma dose de cachaça que desce rasgando, e seguir com a sua vidinha de merda. Claro, aquilo tudo viraria tema para mais uma sessão de terapia, à qual, entre idas e vindas, ele ia há uns três anos, desde que havia se divorciado.

Entre os amigos? Todos eram unânimes. "Carlinhos, você precisa relaxar. Nesse ritmo você vai conseguir uma ponte de safena, cara!", ele chegou a ouvir uma vez do seu melhor amigo. Por mais que ele tentasse relaxar, algo sempre o fazia estar distante de tudo ou de todos, como se ele não se encaixasse ali. Ou melhor: como se ele não se encaixasse em lugar nenhum, sendo outsider entre os próprios outsiders. Até mesmo com a própria família. O que o fazia se sentir assim? Nem ele sabia. Tudo foi considerado: traumas de infância, algum relacionamento mal resolvido na adolescência, até mesmo fobia social. Mesmo assim, nada parecia fazer sentido.

Namoradas, dates e afins? Dizer que ele não conseguia se entregar a nenhuma delas chega a ser redundante. Ele parecia sempre esperar pelo fim, o que realmente era inevitável graças à maneira como ele encarava tudo. Todos os seus relacionamentos podem ser resumidos no bilhete que sua ex-esposa deixou ao partir e nunca mais voltar: "Essa sua mania de colocar um muro entre você e o mundo, só para não se machucar, ainda vai te fazer viver sozinho. Aguentei o que pude e cheguei no meu limite". Até hoje aquilo lhe dilacerava a alma. Até dava para tentar esquecer entre uma dose e outra de uísque, mas tudo voltava à tona quando ele acordava ao lado de outra mulher que não fosse sua ex. Foda é que ele fazia tudo em repeat eterno, como se estivesse punindo a si próprio por ter perdido a mulher a quem amava.

Já em família, o convívio era dos mais conturbados. Para cada encontro agradável, outros dois terminavam com algum tipo de discussão, por mais que o motivo fosse o mais tolo e comum possível. Ele não conseguia se perdoar e encostar tranquilamente a cabeça no travesseiro por ser intratável logo com quem ele mais amava. Sua mãe ainda o entendia - toda mãe entende o filho, por mais canalha que seja -, mas os conflitos com o pai eram frequentes. Logo com ele, a quem ele sempre admirou. A merda toda era que, justamente por ser diferente ao extremo de seu velho, a nada boa e velha raiva de si próprio sempre vinham à tona. Era ainda mais foda que isso tudo era externado da pior maneira possível e, por mais contraditório que parecesse, aquilo tudo fosse a mola propulsora para conversas acaloradas virem à tona. Por mais que ele tentasse, tudo sempre terminava mal. Ele sempre teve o raro dom de estragar tudo, de foder a própria vida e magoar àqueles quem ele mais amava. Isso era um peso que ele não conseguia mais segurar.

Tudo isso passava pela sua cabeça enquanto dava entrada na emergência de um hospital, ao sentir fortes dores no peito e falta de ar, enquanto era entubado. Os pensamentos ficavam cada vez mais confusos e lentos com o passar do tempo, e cessaram conforme a visão ficava mais e mais turva e escura.

Esquecer

Posted: quinta-feira, 25 de julho de 2013 by ajeugenio in Marcadores: , ,
2


Saiba que aquele bilhete deixado na mesa, embaixo daquele Kafka, me faz ir às lágrimas até hoje. Faz um ano desde aquele dia, que por sinal fodeu com a minha vida desde então e não consigo esquecê-lo. E olha que tento me fazer de durão, como sempre fiz e você sabe disso. Ter de ler: "Cansei da sua loucura e da sua insegurança disfarçada de arrogância. Te amo, mas não dá mais!" doeu tanto quanto as porradas do Weidman no Anderson Silva. Mesmo assim, dava pra entender. Mas citar Jeff Buckley foi muita filha da putice da sua parte, saiba disso. Caralho, você sempre soube que choro que nem criança quando ouço Forget Her e So Real! Você não tinha esse direito.

Tá, admito que nunca fui grande coisa. Todas as suas queixas sobre eu não te amar não faziam o menor sentido. Você nunca me deixou te dizer que a minha aparente indiferença era desilusão. Sim, desilusão, mas por ser incapaz de ser o homem que você merecia ter por perto. Soube pela Lia (ao contrário do que você jura de pés juntos, nunca fiquei com ela enquanto estivemos juntos) que você encontrou alguém que te trata como você merece e te faz se sentir mais amada. Saber que ele é um coxinha de merda é desolador, mas pelo menos você está feliz. Isso alivia um pouco a dor, pelo menos.

Não sei se você teve mais notícias de mim (espero que não, pois só fiz mal para você, aposto), mas o meu comportamento não anda tão autodestrutivo como podem ter te dito por aí. Tá bom, reconheço que tenho bebido um pouco mais do que o normal, vá lá, mas tenho de ter o mínimo de bom senso nessa porra de vida. Aquele trampo na livraria rende uma mixaria, você sabe, e o aluguel tá mais caro. Nem falo porra nenhuma da banda larga e das outras contas porque não quero ficar com mais pena de mim do que a que já se tornou habitual desde que você partiu e nunca mais voltou (com tanta música do Tim, por que tinha de lembrar logo dessa, porra?!)

Falando em música, tudo lembra você. Sabe o vinil do Exile On Main St., aquele que nem fodendo deixava você tocar? Cada faixa lembra todas as vezes que transamos enquanto ele rolava ao fundo, daquele dia em que pintamos o apê (foi engraçado, diz aí), cada vez que ficávamos grudados um ao outro no sofá... Então, tá foda até mesmo olhar pra capa. Talvez descole uma grana se eu vender no sebo do Zézinho, se pá. Los Hermanos, então, fere os ouvidos e a alma. Sem contar que não tô mais com saco pro pedantismo daquelas letras que me pareciam incríveis até você cair no mundo. O bom e velho B.B., o rei, tem sido a minha companhia habitual. Devidamente acompanhado pelo igualmente bom e velho Jack, é claro. Em que momento deixei de ser o cara blasé que sempre fui até te conhecer pra virar aquele loser do caralho do (500) Dias Com Ela? Foda que nem posso te culpar por isso.

É foda dar o braço a torcer, mas você ainda faz parte da minha vida, por mais que eu tente te esquecer. Todos os porres nos últimos tempos foram pra te deletar da minha mente. Todas as mulheres com quem fiquei nos últimos tempos - as que paguei, inclusive -, todas elas foram tentativas desesperadas de te esquecer (mesmo assim, nunca fiquei com a Lia, já te disse isso?). Todas as crises de choro que tive desde então foram de desespero por não conseguir esquecer de que te amo, que te amo muito mais do que a mim mesmo. Acho que ando tão chato que até o Betão e o Bernardo estão evitando fazer rolês comigo, de tanto que fico reclamando da vida. E olha que desde os tempos de escola fomos inseparáveis.

Enfim, tudo o que quero é que você seja feliz, mesmo com aquele coxinha de merda. Não se preocupe comigo, pois já me acostumei com a melancolia. Fique em paz e cuide bem de você. É a única coisa que ainda me importa.