HORA E VEZ

Posted: segunda-feira, 12 de maio de 2014 by ajeugenio in Marcadores: , , ,
0



Aquele era mais um dia como qualquer outro. Estava caindo de casa antes do Sol raiar para pegar no batente. Ainda dava pra ouvir umas galinhas cantando, se pá. Estava subindo a ladeira pra tomar o busão e, depois, tomar o trem lotado pra bater o ponto na firma. Aquele dia não prometia nada de anormal. No máximo, parar no boteco após o expediente pra tomar a breja de cada dia e passar a noite com a patroa e a minha filha.

O dia seria comum, mas uns caras subiram correndo e gritando "Pega ladrão!". Saí correndo também pra dar uns sopapos no filho da puta. Sempre achei que bandido bom era bandido morto. A minha mãe sempre dizia isso. Desde a escola ouvia a mesma coisa. No trampo, no bar e em casa, todo mundo concordava com esse lance aí. Sempre aplaudia quando via um filho da puta desses ser jogado no camburão. Vi um dia desses aí aquela moça da TV dizer que dava pra entender por que uns caras aí amarraram no poste um neguinho ladrão e concordei com tudo. Sempre fui desses que achava que quem estivesse com dó de bandidinho deveria levá-lo pra casa.

Só que o ladrão da história era eu. Logo eu, que desde moleque ralava pra ajudar a minha mãe a pagar as contas. Logo eu, que madrugava e trampava de Sol a Sol pra não deixar faltar nada em casa. Logo eu, que sempre paguei os meus impostos e me considerava um cidadão de bem. Mas eu virei bandido pra alguns caras e fodeu. Nem sei o que foi roubado e o que aconteceu para eles acharem que eu era o bandido. Tentei correr, mas não deu em nada: um cara chegou com tudo e deu uma voadora nas minhas costas. Parecia que eu havia sido rachado ao meio e aquela dor quase me fez perder os sentidos. Só deu tempo de levar uns dois pontapés na cara pra apagar geral.

Acordei apenas três dias depois disso tudo aí - o médico me disse que fiquei sedado, pois fiquei com um puta coágulo no cérebro. Só de tentar abrir a boca, doía tudo. Os caras destroçaram o meu maxilar, quebraram o meu nariz e quase deslocaram uma das minhas retinas. o meu mundo caiu de vez quando percebi que não mexia nada da cintura pra baixo. "Maldita voadora!", pensava enquanto o médico dizia que a medula estava fodida e eu estava paralítico. Eu não conseguia conter as lágrimas de dor, raiva e desgosto, que caíam no meu rosto.

Agora terei de refazer a minha vida. Não sei por mais quanto tempo vou depender da minha mulher pra ir ao banheiro. Nunca mais vou poder bater a minha bola na quadra da quebrada. Nunca mais vou poder trampar na fábrica - sim, eu curtia o que fazia lá. Vou ter de aturar a cara feia do pessoal no busão, pois eles não têm saco pra esperar o elevador pra cadeirantes funcionar - eu também não tinha e achava que esses caras aí atrasavam o lado de todo o mundo. Só que, agora, eu sou esses caras aí.

Alguns malucos foderam a minha vida em nome de justiça. Só que justiça com violência não é justiça. Só deu pra perceber isso quando perdi o meu direito de ir e vir porque uns caras quiseram fazer justiça com as próprias mãos e decidiram brincar de Deus. Dizem que a vida é injusta. Talvez ela seja, sim. Mas decidir quem merece viver ou morrer é ainda mais injusto.

CARTA AO PAI

Posted: segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014 by ajeugenio in Marcadores:
1


Obrigado por estar sempre ao meu lado e por me apoiar, mesmo a distância. Obrigado por ter me dado o seu nome - vá lá, "Amauri Alfredo" é uma combinação pouco feliz, não dá para negar, mas não é nada perto de quem você é. Obrigado por me fazer rir quando tenho alguma crise depressiva e tento, em vão, conter as lágrimas. Obrigado por todas as vezes em que me encorajou e foi até mesmo duro comigo quando duvidei de mim mesmo, tal qual um garoto com medo de cair novamente da bicicleta. Obrigado por todos os esporros, lições de moral e afins - apesar de ser incapaz de demonstrar isto, serei eternamente grato por elas. Obrigado por me proteger de mim mesmo. Obrigado por compartilhar comigo os seus medos - porra, apesar de quase ter desfeito aquela imagem de pai super-herói que ainda tenho de ti, isso me faz perceber que você é humano, demasiado humano. E essa é uma prova de confiança inestimável, da qual duvido até hoje se tenho moral para merecê-la. 

Desculpe-me por todas as vezes em que fui motivo de preocupação, em especial por eu ser um pouco autodestrutivo e por temer que eu seja algoz de mim mesmo. Desculpe-me por todas as vezes em que, mesmo você estando equivocado sobre um aspecto aqui e ali, fui ainda mais sem-noção e ignorei tudo o que você disse. Desculpe-me por oscilar entre segundos de arrogância e dias inteiros de baixa autoestima intensa. Desculpe-me por ser incapaz de pedir ajuda ou um ombro amigo, mesmo que você perceba que é exatamente isso o que preciso. Desculpe-me por tentar parecer ser intransponível e autossuficiente, e por me isolar em meu mundo pequeno - velho, isso tudo é apenas uma armadura pra não ter de deparar com o meu medo de fracassar.

Como já disseram por aí, é você quem aparece quando olho no espelho. É em você em quem penso quando tenho de tomar alguma decisão que julgo ser incapaz de fazê-lo, ou quando me vejo em uma roubada e tento procurar uma saída. 

Acima de tudo, obrigado por ser a minha espinha dorsal, por estar 24 horas por dia mental e emocionalmente ao meu lado. E obrigado por não ter desistido de mim. Acima de qualquer coisa, obrigado por ser meu pai.

INFERNO A PRAZO

Posted: segunda-feira, 9 de dezembro de 2013 by ajeugenio in Marcadores: ,
0


Ele não aguentava mais ver o apartamento tomado por bugigangas que nunca seriam usadas. Cada dia ali dentro era um martírio e, sem exageros, aquela desordem sintetizava como estava o seu casamento. Ele não entendia como sua mulher havia chegado ao ponto de ter se apegado tanto àquela montanha de objetos inúteis e de reverter toda e qualquer frustração em sacolas e faturas do cartão de crédito que só eram quitadas com o 13º salário. 

A calamidade do lugar era tamanha que ele sequer conseguia chamar os pais para um almoço de domingo ou os amigos para tomarem uma cerveja enquanto passava um jogo na TV. A coisa só não era pior porque ela não descontava frustrações na aquisição de animais - "isso aqui viraria um canil", pensava desolado. Ela tivera fases: na atlética, ela salvara a loja de aparelhos para ginástica da falência e inutilizara o quarto que seria do filho que nunca veio. Na de livros, o sebo da esquina tinha de renovar o estoque diariamente e o acervo (se é que pode ser chamado assim) ia de J.K. Rowling a livros de autoajuda. Contraditoriamente, um dos livros era algo como "Dez passos para livrar-se do consumismo". É melhor nem falar nada sobre as outras fases porque o assunto seria sobre todos os setores de uma loja de departamento.

Aquele dia era a sua última esperança de fazer algum programa que não se resumisse a compras. Ele não pensou duas vezes: pegou uma cesta, uma toalha que mais parecia a camisa da Croácia, algumas frutas, pães e um bom vinho chileno, virou para a mulher e disse: "vamos fazer um piquenique". "Vamos passar no mercado, né?", perguntou a mulher, já fazendo planos para comprar algum produto inútil. "Nem fodendo, amor", retrucou, sem conseguir esconder a frustração. Mesmo assim, eles foram.

O plano dele era fazer uma rota alternativa, sem passar por perto de nenhum shopping, loja ou algo do gênero. Aquela seria uma missão das mais difíceis, mas ele daria conta. Ou achava isso, pelo menos. Mas ele cometeu um erro mortal: confiou no GPS e, num descuido, entrou em uma rua pouco conhecida que dava de cara com o shopping center próximo à sua casa. "Amor, quero entrar! Preciso fazer compras de Natal!", dizia ela, histérica e euforicamente. "Quero entrar! Quero entrar!", começava a gritar.

Ele não conseguia esconder a desolação e algumas lágrimas furtivas escaparam de seus olhos - parecia algo insano para qualquer pessoa, mas aquilo corroía sua alma e sua paz de espírito dia após dia. E ela, tal qual um urubu no lixão, nem reparou na cara de desespero de seu parceiro.

Era impossível andar mais de cem metros sem entrar numa loja. Cada visita era traduzida em sacolas e mais sacolas: sapatos, vestidos, capas para smartphone, bolsas e até mesmo uma caixa de lápis de 36 cores estavam nas mãos dele (nem fodendo ela seguraria uma sacola, é claro). Enquanto ela se comportava tal qual uma criança uma loja de brinquedos, o refrão de "Realismo Convincente", do Mombojó, martelava em sua cabeça: "eu preciso sair daqui, eu preciso parar de mentir, eu preciso salvar o mundo mesmo que não ganhe nada com isso, não". Estava foda viver. Com ela, em especial. E ele estava decidido em pedir o divórcio logo que eles chegassem ao apartamento (ou depósito, como preferirem).

Enquanto ele estava perdido em pensamentos, ela começou a arrastá-lo justamente para a loja mais movimentada daquele shopping. "Vamos, amor!", ela falava. "Chega! Não vou entrar nessa porra de loja! Cansei de ser cúmplice da sua loucura. Não dá mais!", gritava, enquanto tentava separar sua mão da dela. Claro, isso chamou a atenção de quem estava ao redor deles. Após mais algumas trocas de acusações, ele, em um ato de desespero, saiu correndo e pulou grade abaixo. Seu corpo levou dez segundos para ir do quarto andar ao chão e causar impacto oco, porém brutal. Ele comprara sua liberdade daquele mar de inutilidade. Para completar, à vista.


CORRUPÇÃO PRIVADA

Posted: domingo, 8 de dezembro de 2013 by ajeugenio in Marcadores: , ,
3



Beth e Carlos estavam namorando há sete meses e, sabe-se lá por quê, ela ficava ainda mais apaixonada por ele dia após dia. Por outro lado, ele a via apenas como uma foda fixa, nada além do que isso. Tanto que, às escondidas, Carlos traía Beth na primeira oportunidade que encontrava. Mesmo com os amigos alertando sobre Carlos, Beth não dava a mínima. Afinal, ele era tão legal com ela, eles se entendiam tão bem na cama e ele a tratava tão bem, que nada parecia fazer sentido. "Isso tudo é inveja! Só porque estou feliz...", pensava e dizia para si própria.

Ela estava tão cega e encantada por Carlos, mas tão encantada, que toparia fazer qualquer coisa para agradá-lo. E, ao perceber que tinha Beth na palma da sua mão, ele não pensou duas vezes e fez uma proposta para lá de indecente: gravar os dois transando. "Ver você num vídeo é excitante, amor", disse, sem esconder o ar canalha. Beth até estranhou no início, mas se era para agradá-lo, por que não? Mesmo com medo, que não conseguia identificar, ela foi até a casa de Carlos, ajudou no enquadramento da câmera e superou a inibição inicial no vídeo: oral, posições variadas e gemidos estavam todos ali, gravados. Mas Beth não imaginava o que poderia acontecer dali em diante.

Dias depois, Carlos encaminhou o vídeo para um brother no WhatsApp. "Dá uma olhada na performance da gata", enviou segundos antes do vídeo. Daí, em questão de horas, meio mundo estava assistindo ao já famigerado vídeo. Chegaram a postar no YouTube, mas fora retirado do ar algumas horas depois por violar regras de uso e o caralho a quatro. O mundo de Beth estava de ponta-cabeça. Ou melhor: tão destruído como uma cidade dizimada pela guerrilha civil.

Os dias seguintes foram devastadores. Seu perfil no Facebook estava inundado de postagens de desconhecidos, que se resumiam a frases como "Se fode aí, sua puta!", "Vadia de merda!" e daí para baixo. Os pais estavam prestes a expulsá-la de casa e os amigos, então, viraram as costas. "Até parece que vou andar com você, uma rampeira de quinta categoria... Vai queimar o meu filme, isso sim", disse sua até então melhor amiga, em uma ligação, curta, grossa e nada cortês. O golpe de misericórdia veio dias depois, como uma mensagem fria e sem sentimentalismo algum no WhatsApp: "não namoro com putas. Vazei. Se fode aí". Sim, Carlos, o cara que a convenceu a gravar o vídeo que fodera com sua vida, tirou o dele da reta e acabou com o que parecia ser um conto de fadas até alguns dias antes.

A vida não parecia fazer mais sentido algum. Ela queria sumir, desaparecer e morrer. E a saída que ela encontrou começou com o seguinte e-mail à mãe:

"Mãe,

Me perdoe. Não quis te envergonhar, menos ainda ao pai. Tudo o que quis foi agradar ao Carlos. Ele insistiu tanto para gravar aquele vídeo... Não imaginava que ele mostraria para outras pessoas.

Haja o que houver, saiba que te amo.

Amor,

Beth."

Em seguida, a janela de seu quarto, no sétimo andar de um condomínio de alto padrão em um bairro nobre, parecia ser a única saída para reencontrar a paz.

Carlos, até então ileso de tudo o que fizera com sua namorada, sentiu remorso e culpa quando soube que Beth havia cometido suicídio. De certo modo, ele a havia matado e, com ela, uma parte de si que ele até então desconhecia.

METAMORFOSE AMBULANTE

Posted: segunda-feira, 11 de novembro de 2013 by ajeugenio in Marcadores: , ,
2



Nada parecia fazer sentido na porra da vida dele. Era como se sua vida fosse um grande quebra-cabeça cuja última peça tivesse propositalmente destruída por quem o jogou no mundo. Ele simplesmente tinha dificuldade para relacionar-se com qualquer pessoa, até mesmo com quem mais amava. Era como se ele fosse um beatnik condenado a passar uma temporada em uma repartição pública. Ele era um outsider até mesmo entre outros outsiders desde que se entendia por gente. Era como se ele tivesse virado Gregor Samsa, mas ninguém lhe desse a mínima.

Seu olhar era distante e triste, como se fosse o de uma criança olhando longe à espera dos pais, mesmo sabendo que eles estavam mortos e nunca apareceriam para buscá-lo. Ele aparentava ser arrogante, antissocial e blasé, e era assim como ele queria ser visto por todos. Mas sua postura autossuficiente era apenas uma armadura para não deixar seu lado vulnerável e inseguro à mostra. Por trás de sua expressão e sua postura indiferente e alheia a tudo e a todos vivia alguém que, se não se controlasse, choraria a cada cinco minutos – ele ainda tentava se fazer de forte, mas vez ou outra chorava às escondidas. Chorava de desespero, impotência, insignificância e falta de perspectiva de dias melhores. Ele se odiava por isso: não se conformava com sua fraqueza.

Amores? Bom, eles costumavam durar apenas uma noite e não raras vezes alguns contos de réis. Ele não conseguia se entregar, simples assim. Tudo por causa de uma dessas paixões juvenis, fugazes, intensas e voláteis, em que, no fim, sua namorada à época o trocou pela versão pós-moderna de um figurante de “Juventude Transviada”. Aquilo doeu ao ponto de ele ter pensado em tudo, até mesmo em jogar-se na frente de um ônibus, mas ele não tinha coragem de fazê-lo. De tão dolorosa, aquela experiência o fez perder qualquer tipo de sentimento nobre em relação a qualquer pessoa. Ele tampouco nutria ódio por ninguém, mas tudo o que ele sentia – ou melhor: não sentia – era indiferença. Aquilo ainda doía como se um verme roesse suas fibras. Era como se ele morresse em vida, dia após dia, de forma lenta e sem esperança alguma.

Por mais contraditório que possa parecer, quando ele tentava provar para si próprio que ainda estava vivo, tudo era hiperbólico demais. Ele ria demais. Ele falava demais. Ele bebia demais. Mas ele não se sentia demais. Era como se ele fosse um rastilho de pólvora que levava poucos segundos para explodir e, segundo após a hecatombe, voltasse à inércia. Ele era a antítese em pessoa: apatia e paixão; ying e yang; Senna e Prost; Mick e Keith; Jekyll e Hyde. Nem mesmo Freud conseguiria explicar o que se passava em sua cabeça.

Tudo o que ele queria era sumir. Ele estava cansado de ver as pessoas na sala de jantar ocupadas apenas em nascer e morrer, de ver aquele grande panis et circenses virar modus operandi, de viver em um mundo onde ele era desajustado vitalício e onde até mesmo os demais desajustados o vissem como um corpo estranho. Ele não suportava mais ouvir aquelas risadas plastificadas e falsificadas na mesa do bar, sendo que horas depois tudo remeteria à melancolia. Ele queria a mais sincera loucura em detrimento à assepsia da normalidade imposta por convenções sociais.

Tudo o que ele precisava era de uma hora e vez, que vieram sem aviso prévio e sem bater à porta, mas simplesmente metendo o pé nela. Como um marido que diz à mulher que vai comprar um cigarro, mas não volta, ele arrumou sua mochila, pegou o dinheiro que lhe restara de uma noitada com a puta que abara virando sua fuck friend e ouvinte, botou o pé na estrada, partiu e nunca mais voltou. O mundo era grande demais e ele precisava explorá-lo de ponta a ponta.

ZERO ABSOLUTO

Posted: domingo, 6 de outubro de 2013 by ajeugenio in Marcadores: , ,
2


Noite de frio em São Paulo. O vento está gélido e cortante e as ruas, beirando o desértico. As poucas pessoas que se atreveram a sair de casa pareciam ser muito mais cidadãs de Edimburgo do que de São Paulo. Para completar, a garoa fina tornava o clima ainda mais insuportável. Zé, que fazia das calçadas da Mooca o seu lar, tentava encontrar forças para aguentar aquele frio lancinante. Nem o cobertor Parahyba parecia aliviar o frio na espinha, pernas, braços e alma.

Naquela noite, depois de muito tempo, ele finalmente havia voltado a sentir-se alguém, de fato. Por causa do frio, é verdade. Ele havia perdido o costume de pensar, assim como perdera o hábito de falar. Quem o visse poderia até compará-lo com Fabiano, aquele de "Vidas Secas", por causa do vocabulário quase inexistente. Para não dizer que ele não conseguia articular palavras, ele conseguia dizer o bastante pedir uns trocados, que seriam revertidos em aguardente. A única refeição que ele fazia no dia era o sopão entregue no fim do dia por um casal de idosos abnegados.

Nem ele mesmo sabia o motivo, mas naquela noite os pensamentos voltaram a fazer seu cérebro ficar a mil, como nos tempos em que ele trabalhava como advogado. "Madalena", ele balbuciava, apesar do maxilar tremendo por causa do frio. Era por causa de Madalena que sua vida e sua mente viraram pelo avesso. Ele a amou muito mais do que a si próprio por sete anos, somando um ano em que ficaram enrolados, outro ano de namoro, dois de noivado e os três em que ficaram casados. Ele não conseguia entender por que ela o trocou por seu melhor amigo - logo ele, a quem ele considerava como um irmão. Aquilo doeu tanto, mas tanto, que ele largou o emprego, saiu de casa só com a roupa do corpo e foi parar nas ruas. Foi naquele momento em que José Luiz virou Zé e fez o seu escritório nas calçadas e embaixo da ponte.

Uma lágrima furtiva rolou enquanto ele se lembrava de Madalena e da sua vida até aquela hora e vez que nem Guimarães Rosa conseguiria criar. Nem a cachaça o ajudava mais a esquecer-se dela e do frio. Do nada, os pensamentos ficavam mais lentos, assim como a respiração. Pouco a pouco, enquanto tentava ficar em posição fetal, abaixo do cobertor, ele deixava de sentir as mãos e os pés, e a dormência dominava paulatinamente o seu corpo por completo. A visão, bem aos poucos, ia ficando turva e escura. E o coração, já endurecido, foi ficando cada vez mais lento e mais gelado como o clima naquela noite.

PENSAMENTOS VISCERAIS

Posted: sexta-feira, 4 de outubro de 2013 by ajeugenio in Marcadores:
0


Dezenove horas, horário de Brasília. Fodam-se “A Voz do Brasil” e a merda da rotina. Foda-se a gravata que metafórica e literalmente o sufocava. Foda-se o All Star furado que, juntamente com o jeans confortável, mas desbotado, destoava do conjunto formado pela mesma gravata, camisa e blazer. Fodam-se aqueles rostos apáticos no bar, como os de personagens de “Admirável Mundo Novo” embalados pelo soma entorpecente de cada dia. Foda-se o VT do jogo da Premier League – “futebol para coxinha e inglês ver”, pensava. Fodam-se aquelas risadas falsas ou embaladas por cerveja, que na verdade era um pouco de cevada com milho fermentado. Foda-se esse som ambiente mela-cueca e essa merda de vida também. Fodam-se até mesmo os seus amigos, que levavam vidas felizes ao lado das esposas e dos filhos, que só davam dores de cabeça quando choravam no meio da madrugada.

Falando em casamento, ele tentava entender o que dera errado com o seu, no qual após três anos de muitos baixos e um ou outro alto, fora por água abaixo. Entre um e outro copo solitário de cerveja e um cigarro, ele tentava ligar os pontos e entender em que ponto tudo começou a desandar. Ele ainda a amava, mas o seu orgulho e sua insegurança travestida de prepotência o impediam de voltar para a sua ex.

Mesmo inconscientemente, ele sabia que isso havia arruinado tudo e o fizera abandoná-la. Ele preferia rejeitar a ser rejeitado e, por temer ser abandonado pela mulher quem ele amava, ele a deixou após a transa mais visceral, raivosa e intensa que eles tiveram. Ele estava com vontade de chorar copiosamente, mas desde garoto aprendera a não deixar a porra de uma lágrima rolar na frente de ninguém. “E nunca ouse chorar após beber. Não há nada pior do que a porra de alguém bêbado chorando”. Aquela frase, dita por seu pai quando ele era apenas um garoto que começava a conhecer a vida, ecoava em sua mente como uma voz ente as paredes de uma caverna.

Enquanto sua mente estava absorta em pensamentos e confusões, ele cogitou ligar para sua ex-mulher, mas o orgulho e o medo de ela desligar a ligação na sua cara o fizeram desistir. Sua introspecção e até mesmo a timidez, que eram bem disfarçadas por ele, também o impediram de discar os números que insistiam em continuar na porra da mente dele. “Foda-se ela também”, pensou alto. Ou melhor: falou sem perceber. E, sem perceber também, chamou a atenção da garçonete, que lavava alguns copos do outro lado do balcão. “Que horror, moço! Por que tanta raiva?”, indagou, ainda espantada com o que poderia ser confundido com um acesso de Tourette. “Foi mal aí. Pensei na minha ex-mulher e fiquei um pouco irritado”, respondeu, tentando desconversar e praticar a introspecção. “A vida tem dessas coisas, mas bola para frente. Inês é morta, amigo”, replicou a garçonete.

“Caralho! Não é todo dia que uma garçonete cita Camões. E olha que nem tenho saco pra Camões”, ele pensou. Essa foi a deixa para que reparasse com mais calma na garçonete: apesar dos cabelos presos e da aparente austeridade, seu sorriso era algo entre tímido e malicioso. Seu olhar, apesar de baixo, era penetrante quando ela erguia a cabeça. Mesmo com o avental, dava para reparar que seu corpo era bem torneado, e seus seios, apesar de não serem grandes, eram honestos e facilmente pegáveis. Tá, ela notou que ele não tirava os olhos dela, deu aquela risadinha clássica de quem sabe de que há segundas intenções no ar e perguntou, como quem não quer nada – mas queria – para o quê ele estava olhando. “Nada, não. Estava perdido em pensamentos, saca?”, disfarçou, mas sem convencer sequer a ele mesmo.

Fingindo que não havia sacado nada, a garçonete continuou conversando despretensiosamente com ele e aproveitou para trazer mais uma garrafa de cerveja e começou a puxar papo com ele. “Qual o seu nome? E o que faz da vida além de reclamar?”, perguntou. “Bernardo, jornalista e alguém não muito sociável”, respondeu, tentando manter a postura blasé de sempre. “E o seu nome? Por que faz tantas perguntas?” “Lara, estudante de comunicação na parte da manhã e garçonete à noite, muito prazer”, e foi atender aos outros clientes no bar.

Assim foi até o último e indesejado cliente sair dali e, após isso, eles caminharam e conversaram mais até chegarem a outro bar. Lara saiu do sul para estudar na USP, mas para não depender da grana dos pais, começou a trabalhar como hostess em um restaurante na Vila Olímpia, mas se cansou dali. Foi aí quando ela passou a trabalhar como garçonete. Conforme mais ela falava sobre sua vida, frustrações amorosas e expectativas, como um estágio numa editora ao qual ela se candidatou, mas sem dar detalhes, mais Bernardo ficava envolvido por ela. O golpe de misericórdia foi ela dizer que não imaginava sua vida sem Kerouac e Bukowski. Daí, foi questão de tempo para eles ficarem e, dos amassos na rua às preliminares no apê de Lara, a duas quadras dali, foi um pulo. “Em questão de horas eu deixo de reclamar da merda do meu dia e recebo o melhor boquete da minha vida”, ele pensava enquanto suas pernas estavam bambas e puxava os cabelos dela.

Tudo o que ele queria era agarrá-la, chupá-la e penetrá-la com tanta intensidade, mas tanta intensidade, que até Ron Jeremy ficaria com inveja. A vibe entre os dois estava visceral ao ponto de ela gemer como se fosse a última transa da vida dela e puxá-lo para dentro de si – isso sem contar as unhas cravadas nas costas dele. Ele queria gozar e se esquecer dentro dela. Entre uma gozada e outra, foram quase duas horas de sexo intenso. Lara teve um orgasmo, o que não acontecia há tempos. Após dormirem abraçados, eles transaram sob o chuveiro e não pareciam mais querer largar um do outro.

Bernardo teve de ir embora por causa do plantão que pegaria naquele dia, mas foi difícil deixar Lara, mesmo por algum tempo. Ele não conseguia concentrar-se no trabalho, mas já não pensava mais na ex-mulher. Por mais que ele tivesse ficado com outras pessoas após o divórcio, nenhuma mexeu tanto com ele como Lara. Mal ele poderia imaginar que, uma semana depois, seria contratada uma estagiária para o núcleo em que ele trabalhava. Menos ainda que a estagiária seria ela.