INDÚSTRIA FONOGRÁFICA: HEROÍNA, VILÃ OU MACUNAÍMA?

Posted: segunda-feira, 9 de janeiro de 2012 by Mau Júnior in Marcadores: , , , , , , , , , ,
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Na última semana, Dan Auerbach e Patrick Carney, guitarrista e baterista da banda The Black Keys, respectivamente, culparam a banda de rock (?) Nickelback, em entrevista à matriz estadunidense da revista Rolling Stone, pelo “assassinato do rock”. O motivo do crime de lesa-humanidade musical é o fato de os canadenses serem volta e meia considerados como “a maior banda de rock do mundo”.

Essa declaração, apesar de elitista, tem lá seus méritos. É inegável que dez entre dez músicas do Nickelback têm elementos previsíveis e refrãos que mais parecem chicletes, de tão previsíveis. Algo semelhante com o que rolou por estas bandas, mais especificamente sobre Michel Teló e Los Hermanos. Pelo menos, o The Black Keys não gravou nada tão “comercial” como Anna Júlia, ao contrário dos (bons, é verdade) barbudos da PUC carioca.

Esses dois casos são exemplos – bobos, talvez – de como a indústria fonográfica funciona: traz caras e bandas incríveis, ao mesmo tempo em que “lixos” culturais são trazidos à tona. Ou, como disse o poeta-depressivo-loser Augusto dos Anjos, “a mão que afaga é a mesma que apedreja”.

O que rege, invariavelmente, é a grana. Para ter uma ideia, os Beatles foram rejeitados (!) pelo empresário Mike Smith na gravadora Decca, em 1961, porque ele achou que o quarteto de Liverpool não seria, digamos, comercialmente falando viável. Outro caso: os Rolling Stones, ainda em início de carreira, tiveram de abrir mão da presença do tecladista Ian Stewart, simplesmente porque ele era “feio”. O que lhe restou foi apenas foi um lugar no backstage, como membro não-oficial da banda.

Por outro lado, é inegável que muita coisa boa, além de ícones da história da música – The Doors, Jimi Hendrix, Eric Clapton, entre outros –, mas muitos enlatados vieram à tona. Por exemplo, pode ser citada a – eficaz e ótima – linha de produção da Motown, que jogou aos holofotes nomes como Marvin Gaye. Mas, por outro lado, movimentos como o reggae e o punk foram “neutralizados”, quanto às respectivas cargas ideológicas, por meio da exploração excessiva de seus símbolos estéticos.

Em solo nacional, houve nomes icônicos que vingaram, como Chico Buarque, os baianos Gil e Caetano – além de Bethânia e Gal, é claro –, Roberto Carlos (vá lá, apesar de todos os pesares comerciais, é preciso tirar o chapéu para o tiozinho, pelo conjunto da obra) e o “síndico” Tim Maia. Mas nomes como Odair José – hoje mito, diga-se – quase foram jogados à sarjeta midiática por causa da repetição excessiva, condicionada à idolatria entre as massas. Isso além do caso Quixabeira, é claro.

Enfim, a indústria fonográfica funciona assim. Para o bem e para o mal. Mesmo que o conceito inerente a ela seja condenável – para não dizer “uma merda”, mesmo –, ela será sempre assim. Algo entre a essência de Macunaíma, o anti-herói, e ao mote da lei de Gerson, ou seja, levar vantagem em tudo. Uma merda. A banda (!) toca assim, mas é assim desde os primórdios. Cabe a nós, independentemente do gênero musical ou de quaisquer outras variáveis, decidirmos o que iremos ouvir ou não.

Apocalípticos e Integrados pós-modernos

Posted: quarta-feira, 4 de janeiro de 2012 by Mau Júnior in Marcadores: , , , , ,
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Não é de hoje que o universo cultural está dividido - vá lá, não tão dividido assim - entre a cultura tida como "erudita", ou melhor, não tão acessível, por causa de uma série de motivos, sejam eles relativos à estética ou ao teor da mensagem; e a popular, marcada por elementos que sejam facilmente identificados pelo grande público, pelas massas.

Apesar de todo o mimimi debate sobre esse tema, o ápice foi atingido após reportagem na revista Época, na qual o artista pop sertanejo Michel Teló foi retratado como, resumindo a história, o cara do momento. Além disso, o cabra foi bisonhamente retratado como o artista que traduzia os valores da cultura brasileira, como se desde o maracatu aos costumes sulistas estivessem em seu trabalho. Nem será necessário falar sobre o fato de ele estar hypado na gringa, com direito a danças feitas por Cristiano Ronaldo, atacante do clube espanhol Real Madrid; e por, até mesmo, pelos soldados israelenses - aliás, a one hit wonder Ai, se te pego está bombando por lá tanto quanto as bombas jogadas contra os palestinos em Gaza.

Pois bem, como se não bastasse, Bruno Medina, (ex?) integrante do Los Hermanos, publicou carta aberta na qual era feita crítica irônica - e recalcada, por que não? - ao sucesso do cidadão, justamente pelo "efeito chiclete" causado pela execução em loop eterno música em questão. Além da presunção intelectual, o fator complicador é justamente o fato dos "barbudos" serem autores de um dos maiores hits "grudentos" do rock nacional: Anna Júlia, uma das maiores afrontas do gênero, ao ponto de ter ainda bem ter sido renegada pela própria banda. Mesmo com regravação feita pelo eterno beatle George Harrison e a porra toda tudo mais.

Pouco depois, Fernando Vives, colunista da ótima revista Carta Capital e que atende pela arroba @sorryperiferia na twittosfera, soltou texto no qual dizia que o gringo gosta tanto de Chico Buarque quanto de (guess who?) Michel Teló.

Vamos por partes: para nós, habitantes mortais dos trópicos, achamos - e com razão - comparar quem quer que seja ao Chico Buarque, seja Teló ou os barbudos da PUC Carioca, é uma afronta ao bom senso. [nota do escriba: gosto muito de LH, mas essa foi indefensável]. Mas, parando para pensar pragmaticamente, há o outro lado da moeda. Não fazemos distinção sistemática entre Frank Sinatra e Lady Gaga. Por que? Mesmo sabendo que há abismo conceitual, em relação à música e à - por que não? - intelectualidade, tratamos as discografias de ambos com certa proximidade, por serem frutos de outra cultura, nacionalidade, whatever. Nada mais natural que joguem na vala comum Teló, Chico, Los Hermanos, Gaby Amarantos e o que mais estiver no caldeirão cultural que é natural da terra que tem palmeiras onde sabiás cantam e são abatidos.

Isso não quer dizer que a discussão será reduzida à questão dos Apocalípticos e Integrados, livro obrigatório do semiologista italiano Umberto Eco e que não terminei de ler no qual é feita distinção entre os conceitos da Escola de Frankfurt (ALE), em que tudo o que era fruto da cultura de massas era passível de ser tratado como lixo cultural; e os funcionalistas, que abraçavam a causa da cultura feita para o povo, em caráter comercial. 

Talvez esteja um pouco mais próxima da linha dos caras da Escola de Birmingham (ING), na qual estudiosos daquela quebrada defendiam que a cultura popular era instrumento de identificação e de representação de determinado grupo social, ao passo em que a cultura de massas - indústria cultural ou qualquer outra porra nomenclatura que queiram dar - misturava elementos da cultura do povo, transformando-a em produto meramente comercial. Um exemplo clássico é a música Quixabeira, que é meramente uma compilação de cânticos entoados por lavradores da cidade de Quixabeira (não Quixeramobim, tudo bem?) e que, após receber roupagem mais "digerível" e de, virou hit na Bahia. Basta dizer que virou música de micareta? 

Esse assunto não será tão estendido, até porque não se trata do Observatório da Imprensa - aliás, a única ambição deste blog é ser lido por uma única pessoa entre 7 bilhões (risos). Se Ai, se te pego/Oh, if I catch you/Xing ling song é boa ou não, isso não dá para discutir rasamente - que reservemos alguma mesa no Sujinho ou em algum boteco para fazê-lo, então -, mas algo há ali. Como disse Nara Leão certa vez, mesmo que determinado trabalho - musical, audiovisual, whatever - não for conceitual e esteticamente bom, tem méritos por atrair as massas. 

Coincidência ou não, esse é o caso de Teló: seja por causa da letra simplificada e de fácil assimilação ou por causa do ritmo comercialmente bem aceito, o hit está para lá de hypado. Se isso é bom ou ruim, isso vai da cabeça de cada um. Mas será que vale tanto estardalhaço por causa do sucesso do cabra? É tão-somente um hit de verão, nada mais. Ah, alguns puristas caíram matando em cima de Elvis Presley e dos Beatles há mais de 50 anos por causa da "simplicidade" de seus sucessos, mas esses mesmos não contavam que ambos dos ícones seriam responsáveis por alguns dos maiores clássicos da história da música contemporânea.

Enfim, tirem suas conclusões e, também, separem suas pedras para atirarem-as em mim.

A ARTE COMERCIAL DE DESTRUIR UMA MÚSICA

Posted: sábado, 26 de novembro de 2011 by Mau Júnior in Marcadores: , , , , , , ,
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Sim, sou um daqueles poucos seres psicóticos na face da Terra que prestam atenção em trilhas sonoras de comerciais. Não só no que diz respeito à busca por referências de clássicos da indústria fonográfica, mas sou senseless ao ponto de procurar pela discografia de alguma banda que, sabe-se lá por qual motivo, me chamam a atenção – ou melhor, por causa de riffs de guitarras que remetem à cena indie ou de grooves da cena soul, invariavelmente.

Assim foi com dois casos emblemáticos – para mim, ao menos: o comercial da Sprite Zero, ainda em 2005, quando o Orkut era relevante (sim, acreditem ou não, aquele site de relacionamentos teve os seus dias de glória); e o do Aquarius Fresh, deste ano. Ambos, por sinal, produtos da holding da Coca-Cola, mas isso não vem ao caso.

No caso da campanha da cena publicitária de seis anos atrás, a OST usada é da banda de indie rock neozelandesa Evermore, mais precisamente a faixa “Falling away”. A vibe do comercial é a seguinte: uma galera que, ao mergulhar em uma quadra transformada inexplicavelmente em uma piscina, sente-se plenamente livre. Querendo ou não, as linhas de guitarras algo intimista e a voz meio tranquila, meio preguiçosa de Jon Hume, frontman da banda, caíram muito bem nesse comercial.



Outro case é o do isotônico/suco/água “suja” (?) Aquarius Fresh. Nele, algumas pessoas, após provar um dos sabores existentes da bagaça, passam a ser “perseguidas” por clones, dando cores fortes e (por que não?) mais dinamismo à propaganda. A OST, no caso, é do projeto francês Breakbot, que toma em doses cavalares da fonte da soul music, lá dos anos 70.



Mas, contudo, todavia, entretanto, whatever e quaisquer advérbios do modo, nem tudo são flores. Sim, alguns clássicos são sumariamente destruídos, ou “estuprados”, mesmo. Há uma questão prática para a composição de covers de hinos da música popular: os direitos autorais. Mais precisamente a lei 9.610, de 1998, ou popularmente (?) conhecida como a lei da Propriedade Intelectual, que trata de marcas e de patentes. [OBS: Fidel Castro diria que isso tudo non ecziste, por causa do “fuzilamento intelectual” cubano, mas isso não é relevante for a while].

Não são raras as agências de publicidade apelam para este recurso para evitar problemas relacionados ao (guess what?) direito de propriedade intelectual. Okay, é legal encontrar uma alternativa mais do que plausível, mas isso não quer dizer que clássicos tenham de ser descaracterizados, na “caruda”, ao ponto de serem transformados em covers inaudíveis e para lá de irritantes.

Vamos a dois casos. O primeiro deles é Come together, clássico dos The Beatles. Por causa da nova campanha – sim, aquela do já bordão “Esta é a minha vida, este é o meu mundo” – da empresa de telecomunicações via rádio, que coincidiu com a mudança da sua logomarca, a “repaginada” feita na música conseguiu deixá-la ainda mais irritante do que o barulhinho de alerta de seus aparelhos [I’m sorry, guys. I couldn’t avoid that]. Desbocadamente falando, a vibe fanfarra dada para ela foi de foder a vida.




Por mais estranho e contraditório que pareça, a marca, em outro comercial da nova campanha – aquele com “figurões” como Alex Atala, Herbert Vianna, MV Bill e Fábio Assunção –, usou como BG [background ou trilha de fundo, como preferir] versão mais fiel à matriz gravada pelo quarteto de Liverpool.




Outro caso, talvez mais bizarro – e pior, pois usou viés irritantemente ufanista e Pacheco –: “Balada do louco”, pela ótica da Brahma. Ou melhor, pela de seu fabricante, a holding Inbev Anheuser. Se a fanfarra beatlemaníaca já dá vontade de dar um mergulho no Tietê, essa ficou bem pior, pelo seguinte: a catarse dos irmãos Dias Baptista e de Rita Lee não combina mesmo com futebol e grito de torcida. A “forçação” de barra foi, no mínimo, desnecessária.



Ainda não acredita? Deem uma conferida na versão original. Vocês entenderão o porquê.

Resumo da ópera: é recomendável, mesmo, que a lei dos direitos autorais seja respeitada, pois ninguém é louco de levar um processo para o currículo “por bobeira”. Mas isso não quer dizer que qualquer um tenha carta branca para destruir clássicos da música.

That’s all, folks!

INCONSTÂNCIA COTIDIANA (PARTE II)

Posted: domingo, 2 de outubro de 2011 by Mau Júnior in Marcadores: , , , , ,
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E aquela noite prometia ser interessante, mesmo. João teve vontade de dizer que o "aprendiz de Jece Valadão" era pós-graduado e adepto da pornochanchada, além de ter o próprio ator, além do mito Paulo César Pereio, como mentores. Mas a cota de comentários sarcásticos havia sido preenchida pouco antes, por motivos óbvios. Restou-lhe dizer nada que não fosse novidade: ele era um foca de merda, motivo de piadas e de preocupação entre seus amigos graças aos seus porres homéricos, além de ser roteirista frustrado de curtas-metragens. Enfim, um merda da sociedade.

João esperava um bocejo colossal vindo de Ana, até porque a minha vida é um tédio só, uma merda - tanto que uma puta, certa vez, havia me dito que ela, sua vida, era um puta (!) tédio -, mas ela mostrou-se interessada, sabe-se lá o motivo. Talvez porque ela já havia tomado umas e outras, e já estava com o seu nível de julgamento e de estabelecer critérios comprometido. Por algum motivo um pouco mais bizarro, ela estava interessada nos pequenos causos (ou melhor, de roubadas) em que João esteve envolvido. Como uma coletiva em que, bem na hora na qual ele faria uma pergunta, teve um ataque de espirros seguido de falta de ar - além de tudo, o mais vexaminoso naquela história foi que tudo foi causado pelo misto de rinite com medo de falar em público. Mas isso não vem ao caso.

Na mesma proporção, ele mostrou-se interessado pacas no que Ana dizia, especialmente sobre o comportamento do indivíduo em sociedade e afins. Sem contar que ambos riam muito alto quando ela contou  a clássica associação do regime comunista aos Smurfs - sem contar a piada que ela mesma fez sobre Smurfette ser a única mulher numa comunidade socialista, que causou certo estranhamento em João, mas, dado o seu estado etílico, não deu muita importância a esse detalhe. Além de todas as pseudo-teorias sobre o pensamento doentio de Lars Von Trier - ou Lars Von Treta, como ambos chegaram a esse nome, por consenso.

A vibe entre os dois ficou intensa, ao ponto de ambos terem sido enxotados do bar, pelo risco de rolar atentado violento ao pudor a qualquer momento - tanto João quanto Ana estavam numa pegada tão louca que transariam no banheiro, caso não estivesse sujo. A solução acabou sendo ir mesmo a um motel meio foleiro, mas que cabia no bolso de ambos ("Um jornalista falido ficar com uma estudante de Sociologia só poderia dar em merda", pensava João). Para foder a porra toda, ambos foram a pé, mas, como dizia o poeta, "tá no inferno, abraça o capeta!".

Não se pegarem no saguão do motel foi um exercício de autocontrole sobre-humano para os dois. Quiçá, tão grande quanto colocar uma garrafa de vodka na frente de Boris Yeltsin, ex-presidente da URSS e notório bêbado. Nem precisa dizer que, ao chegarem no quarto, os dois bateram o recorde mundial ao tirarem toda  a roupa. Nem será preciso entrar em detalhes sobre preliminares e afins (até porque este não é um conto erótico, capice?).

Tudo fluía muito bem. João e Ana estava na mesma vibe, na mesma frequência. Mas, quando estavam prestes a chegar em outra dimensão, uma interrupção abrupta rolou do nada. Sem motivo aparente, Ana começou a sentir-se culpada por estar ali, com um cara que conhecera pouco antes, de uma das maneiras mais bizarras possíveis. Culpada por ser uma "intelectual poser", segundo a própria; culpada por ter agido de maneira irresponsável. Mesmo sabendo que havia sido algo mútuo, João começou a sentir peso na consciência, mesmo com evidências mais do que fortes de que estava com uma pessoa, no mínimo, problemática. Qualquer tipo de clima tinha sumido do mapa, e a noite, até então insana, acabou sendo uma espécie de divã.

Quanto mais ele a ouvia falar, sobre outros relacionamentos que ela vivera e suas crises existenciais, além da revolta contra o mundo - o sistema hedonista-capitalista, no caso -, mais João pagava de psicanalista, e pensava. Pensava que aquilo era exatamente o que ele sentia, mas que resolvia por meio da leitura e de porres "juvenis". Também pensava em por que caralhos aquáticos ele sempre tornava-se um ímã de mulheres problemáticas, tão problemáticas quanto ele.

Como a grana de ambos era curta e a conta no motel perigava ficar cara demais, o jeito foi continuar a conversa num dos poucos bares abertos por 24h. Na verdade, o que ele mais queria era dar o fora e fugir daquela louca, mas, por compaixão (ou por, inconscientemente, ele estar atraído por ela), continuou a ouvi-la noite afora. Depois de muito mimimi e de choradeira inacabável, os dois chegaram ao consenso de que era melhor cada um ir para o seu rumo. Subjetivamente contrariado, João perdeu uma grande oportunidade para dar o telefone errado, de propósito, e forneceu o número pessoal, além de seu e-mail (ele não queria admitir, mas queria vê-la novamente).

Ao voltar para casa, ele não conseguia parar de pensar na pergunta "O que o aprendiz de Jece Valadão faz da vida?", na loucura, no clímax - e na broxada - que aquela noite fora. "Tenho o raro dom de foder a minha vida, que já é complicada", ele pensou. "Sorte não precisar trabalhar hoje. Mais um dia antes de voltar para a rotina de merda", refletia, ao ritmo de marteladas em seu subconsciente. A vida, por mais louca que fosse, continuava, afinal.

INCONSTÂNCIA COTIDIANA (PARTE I)

Posted: domingo, 18 de setembro de 2011 by Mau Júnior in Marcadores: , , , ,
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João era daqueles caras que eram legais com todos ao seu redor, exceto consigo próprio. Na proporção inversa, a única pessoa com quem ele era filho da puta era com ele mesmo, enquanto que o fato de ele ter de ser ríspido com o próprio irmão, por exemplo, o fazia ter pesadelos intermináveis - além do peso na consciência que o fazia ficar à beira de dar um mergulho no Tietê.

No seu emprego, o de repórter foca, ele era bom, até, mas tinha tendência para ficar disperso de suas atividades. Não por incompetência ou por ser DDA - ele tinha algumas características, mas não todas para caracterizá-lo como tal. Seu problema era desestabilizar-se ao ver que qualquer coisa fugia ao seu controle, mesmo as mais triviais, e sentir-se impotente em relação a tal, como se faltasse uma peça para completar o seu quebra-cabeça, e ele nunca fosse encontrá-la. Além de irritar-se com o fato de seus pais passarem noites insones por conta de seu comportamento instável, ora arrogante, ora depressivo, por achar que eles tinham coisas muito mais importantes com as quais se preocuparem ao invés dele, é claro.

Outra coisa que o incomodava era o fato de tudo dar certo em sua vida, pois, desde que ele se entendia por gente, alguma merda sempre acontecia no dia a dia. De tão habituado e resignado a entrar em roubadas sucessivas a cada cinco minutos, um período de calmaria – entenda-se de quase tudo terminar bem – o deixava desconfiado que uma avalanche de merda o encontraria no quarteirão seguinte. Mesmo que ele não o quisesse admitir, essa incerteza o deixava com cagaço eterno.

Enfim, João tinha o raro dom de complicar até mesmo o que parecia ser impossível fazê-lo. Tanto o medo de fracassar em qualquer coisa o quanto sobre o que todos poderiam pensar sobre ele tornavam sua autoconfiança extremamente vulnerável – para não dizer efêmera, mesmo. Logo, recorrer ao álcool era a sua saída mais recorrente para fugir de si próprio e, inconscientemente, ser alguém que ele não era – abusado, ousado, cheio de si. Exatamente o que ele não era no dia a dia, e era como se ele fosse o Jekyll/Hyde pós-moderno. “O Loser e o Libertino”,no caso. Logo, qualquer outra pessoa entenderia a preocupação de seus pais e de seus poucos amigos em relação a ele, por conta de seu comportamento potencialmente autodestrutivo.

De tanto ir a um boteco relativamente próximo de sua casa, daqueles foleiros e frequentados por pseudo-intelectuais de quinta categoria, ele já era amigo até dos garçons, e falava sobre todos os assuntos possíveis e imagináveis com eles. Desde a queda da taxa Selic às fotos da Scarlett Johansson, por exemplo.

Obviamente, os assuntos da moda são os que mais rendem opiniões – de vertentes mais variadas, normalmente –, e resultam em discussões acaloradas. Desta vez, uma dessas discussões envolveu João, e o motivo foi a Scarlett. Ele conseguia polemizar somente quando não sabia a opinião sobre de ninguém sobre qualquer assunto, e foi o caso nesse dia: ao comentar com o garçom que os seios da atriz eram os mais bonitos de Hollywood, uma dessas mulheres com o estereótipo “estudante de Antropologia da USP", aparentemente horrorizada com o que acabara de ouvir, desconsiderou o estado um tanto ébrio de nosso anti-herói [que de herói não tem porra nenhuma, diga-se de passagem] e dirigiu-se a ele, ao chamá-lo de “machistazinho de merda”.

Ainda sem saber de qual birosca aquela minazinha havia surgido, sua reação foi dizer que isso – uma certa parte da anatomia perfeita de Scarlett, no caso – estava evidente até mesmo no enquadramento de câmeras de “Vicky Cristina Barcelona”, de Woody Allen, além de citar uma série de baboseiras pseudo-cult que nem valem a pena ser mencionadas. Ironicamente, o que tinha tudo para transformar-se em uma discussão ideológico-sexual acabou em uma conversa sobre cinema, desde as cores de Almodóvar e sua preferência por Penélope Cruz a até sobre a fotografia e direcionamento de “Elefante”, aquele filme de Gus Van Sant sobre os ataques em Columbine, no já longínquo 1999.

Meia hora depois, numa mesa um tanto isolada, João tentava decifrar ao menos um pouco a personalidade daquele ser enigmático que tentou destruir sua reputação, que já não valia porra nenhuma, além de tentar refazer seu filme; enquanto ela tentava descobrir o que se passava pela cabeça daquela que tentava impressioná-la, mas positivamente, agora. “Prazer, Ana, estudante de Sociologia. O que o aprendiz do Jece Valadão faz da vida?”. Aquela pergunta, por algum motivo, fez João achar que aquela noite seria interessante, e decidiu dar uma chance ao imponderável e mergulhar de cabeça nela.


(Continua)

COVERS (NEM SEMPRE) NOTÁVEIS (8)

Posted: domingo, 28 de agosto de 2011 by Mau Júnior in Marcadores: , , ,
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Homenagear, copiar, regravar e plagiar descaradamente os Beatles é um dos grandes clichês da história da indústria fonográfica. Também pudera, o formato de álbuns, tal qual o conhecemos atualmente - mesmo com todos os formatos de mídia atualmente vigentes -, além do conceito de videoclipe, eternizado (?) pela EMETEVÊ, surgiram graças aos caras.

Logo, não é à toa que todos queiram, em algum momento, ser um dos integrantes do fab 4 pelo menos uma vez na vida, e não importa se o postulante a beatle fake for o bêbado no videokê ou o Ozzy Osbourne - acreditem ou não, ele tornou-se o Ozzy como o conhecemos porque ele queria ser uma espécie de "o quinto Beatle".

Enfim, sem mais delongas - e sem fazer menção aos 250 mil atentados à discografia do quarteto de Liverpool -, vamos a uma cover que realmente valha a pena. Para variar, tinha de ter um dedo - ou melhor, o timbre - de Eddie Vedder, frontman do Pearl Jam, no meio.

Voltemos para 2001. Naquele ano, um dos filmes que mais repercutiram entre o público e a crítica foi o "Uma lição de amor" ("I am Sam", na gringa), no qual Sean Penn interpreta Sam Dawson, deficiente mental que tem de provar ser capaz de criar Lucy (!!!!), sua filha de sete anos, interpretada por Dakota Fanning. Além das várias citações feitas à obra do Beatles durante o filme, algumas das músicas mais marcantes dos caras foram interpretadas por outros artistas - entre eles estava Vedder, é claro.

O frontman do Pearl ficou responsável pela reprodução de "You've got to hide your love away", que ficou, diga-se de passagem, singelamente bela. Além de ter pegada folk, com direito a gaita, inclusive. Se quiser ouvi-la, liguem-se na execução dela durante a passagem do Pearl Jam por estas bandas, em 2005. Se quiserem ouvir "cópia original", da OST de "I am Sam", deem uma olhada aqui.



Para os beatlemaníacos, eis o deleite da versão de "You've got to hide your love away", presente no álbum "Help", de 1965 - anterior à fase mais psicodélica da banda, e isso pode ser notado graças ao corte de cabelo "tigelinha", originalmente chamado de moptop.



Enjoy it, folks!

ENSAIO SOBRE A INFÂMIA (PARTE III)

Posted: sexta-feira, 5 de agosto de 2011 by Mau Júnior in Marcadores: , , , ,
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Ao melhor estilo “Efeito borboleta”, a mulher de minha vida – eu já me habilitava a me referir a ela dessa maneira – não quis saber das minhas justificativas notoriamente esfarrapadas e, aproveitando uma chance profissional que surgira à época para dar aulas no interior, foi embora sem titubear. Para esquecer-se de mim, igualmente à personagem de Katie Winslet em “Brilho eterno sem lembranças”, definitivamente.

O meu mundo havia caído. Motivação para viver, onde estava mesmo? Me sentia igual ao personagem de Ethan Hawke em “Grandes esperanças”, quando a persona protagonizada pela Gwyneth Paltrow o havia abandonado para ficar com um ricaço. No meu caso, eu mesmo havia fodido a minha vida e afastado a Lia de mim. O meu gênio autodestrutivo começava a falar mais alto e, sinceramente, pensei em dar um mergulho no Rio Tietê ou em chafurdar de vez na lama etílica. Mas, para mim, aquele que eu achava ser o meu maior castigo salvaria posteriormente a minha vida: viver não e esquecer-me dela.

Logo, Inês estava morta, e o que me restava era assumir o meu “erro”, ou seja, assumir a paternidade que me cabia no latifúndio da vida. Bernardo, o meu filho, era a minha cara e semelhança, coitado, mas havia passado a ser o meu porto seguro, por assim dizer. Estranho um loser boêmio dizer isso, mas a vida prega algumas peças, às vezes. Com o tempo, deixei de viver de freelas como analista de mídias sociais – ao contrário de outrora, já estava um pouco mais responsável – e, numa cagada do acaso, comecei a trabalhar como freelance em uma produtora cinematográfica. Como havia me acostumado ao ritmo de vida workahólico, acabei sendo promovido. Minha vida profissional começava a se encaixar, mas algo faltava.

Nem precisa ser Einsten para deduzir o que era esse “algo”. Era Lia, é claro. Por mais que tentasse esquecê-la – e olha que tentei muito, e com muitas outras pessoas -, ninguém ocupou o vazio deixado por ela. Consequentemente, eu estava num vazio existencial ferrado, numa bad fodida. Era foda admitir, mas eu havia deixado a mulher quem eu amava ir embora por ter me deixado trair pelos mais primitivos dos instintos humanos... Além de ter pensado da maneira errada, se você me entende.

Antes que eu comece a ficar ainda mais pedante e repetitivo do que sou por natureza, voltemos aonde eu havia parado. Onde, mesmo? Ah, tá. O meu lado workaholic havia rendido noites em claro, ao escrever o roteiro para um longa-metragem. Sim, o meu primeiro filme, com verba liberada depois de muito chorar para patrocinadores e o cazzo a quatro. O roteiro era simples, apesar de ter carga subjetivamente intensa: um cara até então sem motivo forte para viver encontra de maneira fortuita aquela por quem ele se apaixonaria perdidamente, mas uma aventura que ele vivera antes de conhecê-la fode todo o relacionamento. Agora te contesto loucamente, Oscar Wilde: a vida imita a arte. Durma com esse barulho.

Confesso que estava com o cu na mão – desculpe-me por mais esse termo baixo, mas não encontrei nenhum outro que descrevesse com precisão o meu estado de espírito -, no entanto, o meu “cagaço” não seria nada perto do que eu viria a sentir. Nada na vida, assim como na sétima arte, faz sentido, e esse roteiro desconexo que consiste no viver iria me pregar mais uma peça. Que quase me levou a um infarto, diga-se. Sim, Lia apareceu, sem mais, nem menos. Mas por que na noite de estreia do meu filme, porra?

Fiquei atônito, sem saber como agir ou se deveria me dirigir a ela, assim como na primeira vez em que a vi, naquele boteco foleiro, mas a minha cara-de-pau cinematográfica falou mais alto. Não mais do que a minha respiração ofegante, mas falava alto, sim.

Tá, o orgulho estava ferido e ainda me meti a salgá-lo, mas eu precisava fazer o que tinha de ser feito. Foram minutos assustadores, aqueles, mas voltei a me sentir como aquele jovem inconsequente de antes, apesar de não mais o ser. Inconsequente, no caso. Cara, você não faz ideia de como foi difícil furar novamente o Muro de Berlim, mas deu aparentemente certo. Sabe aquela história de que atos valem mais do que milhares de palavras? Nesse caso, os atos eram as cenas, mesmo.

Ao contrário dos filmes hollywoodianos, que na maioria são uma merda, não há mocinhos e vilões declarados na vida. E eu havia sentido isso na pele, ao alternar momentos de heroísmo ridiculamente inacreditável e de vilania, dignos de deixar Alex de Large se borrando de medo. No máximo, posso dizer que fui o anti-herói da minha vida.

Estava em transe – não plenamente feliz, pois a felicidade suprema, idealizada e transmitida por meio do senso comum, não existe. Ao menos, eu tinha a minha musa inspiradora de volta.

Moral da história? Não, não há. Fim? Menos ainda. O fim de um roteiro – ou fase, como preferir – chega conforme começa outra fase, ou é apenas uma instituição estabelecida por meio do senso comum para vivermos em função de um novo começo, do amanhã. O grande lance é viver, e rodar cada roteiro como se houvesse mais uma sequência. É isso.